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VIAGENS DE ANTONIO MIRANDA PELO BRASIL


PLANO VERDADE (BRASIL EM 1993)
18.06.1993

 

Fernando Henrique Cardoso (FHC), o sorridente e brilhante senador do PSDB, é o novo (o quarto!) ministro da Fazenda do Governo Itamar.

Uma tocada de mestre, na opinião da revista Veja (que levantara uma nuvem de poeira e sujeira em torno de Eliseu Rezende, o antecessor).  FHC é quase uma unanimidade nacional, respeitado até pelos adversários.

E, por sorte, não é economista, mas sim um sociólogo, com a prática do diálogo político e a arte da comunicação. Resta saber se é também hábil com as finanças...

Já tentaram tudo para recompor a economia do Brasil e debelar a inflação. Da heterodoxia à ortodoxia. Começando com os “choques” do Plano Cruzado, passando pelo Plano Bresser, suportando o confisco de ativos no desgoverno Collor e, em linhas mais brandas, a “mesmice” ou banho-maria da política “feijão com arroz” do Mailson da Nóbrega e do Marcílio Marques Moreira. Todos os planos começaram bem e acabaram em um desastre!
As políticas de entre-safra, de deixa-ficar-como-está-para-ver-como-fica” empurraram com a barriga a inflação, estacionando-a em patamares elevados — no caso do ministro Haddad, a quase 30% ao mês!!!
Queriam dominar a inflação pela inércia, pelo cansaço...

Desde que tenho consciência de nossa crise econômica, já ouvi todas as explicações possíveis sobre as causas da inflação...
O primeiro vilão foi o salário... O argumento era: se a gente aumenta o salário, o comércio e a indústria embutem o aumento nos preços dos produtos. Achatando o salário, freiava-se o salário — que besteira! — a inflação... Acabaram com o salário e inauguraram a estaguinflação — a combinação perversa entre recessão e inflação...

Depois diagnosticaram outra “causa”: a dívida externa, ou melhor, o pagamento dos juros da dívida. Dez bilhões de dólares por ano! Começaram o calote da dívida na era da Nova República, sumiram-se os investimentos estrangeiros, a inflação bateu todos os recordes!!!

O Delfim Netto em sua fase áurea, tentou a pré-fixação da inflação. Era todo-poderoso, no final do período autoritário. Levou muitas empresas à falência, e a inflação não foi domada...
A adversária Zélia Cardoso de Mello confiscou poupanças e ativos financeiros. Havia, segundo ela, excesso de numerário no mercado. A escassez de dinheiro (“enxugamento”) valorizaria a moeda e os preços seriam competitivos. Deu no que deu: fizeram negociatas, começou a dolarização. Só os preços não pararam de subir.

Houve quem atribuísse o surto inflacionário à especulação, e fizeram congelamento de preços, recrudescendo o ágio e a escassez de produtos, desmantelando a produção...
Aí então botaram a culpa na emissão de dinheiro. Deixaram de emitir, e deu na mesma...
Disseram então que o problema eram os juros. O Itamar vem reduzindo os juros na mesma proporção que a inflação, mas ela vem crescendo...
Apresentaram números, fórmulas, hipóteses, paradigmas. Os economistas digladiavam-se em fórmulas contraditórias e ineficazes.
Devemos recordar que Fernando Henrique é cientista político...
Agora a causa da inflação é o déficit público, inimigo público número um...
Os Estados Unidos da América têm o maior déficit público do planeta, emite moeda como pão quente e a inflação é residual...  Mas os Estados Unidos são os Estados Unidos. Dólar é dólar.

FHC anunciou o Plano Verdade. Eu diria, sinceramente, ele pareceu convincente, coerente , sincero em seu pronunciamento à Nação. Anunciou austeridade em cortes — um 6 bilhões de dólares nos gastos públicos. Seria a hora da verdade... Como a máxima proposta pelo falecido
Tancredo Neves: é proibido gastar o que se arrecada, já que o governo não pode fabricar dinheiro (até pode, mas não deve!...). E gastar melhor, e com honestidade.

Todo mundo concordou com ele. Foi unanimidade por um dia. Agora, cada ministro quer que corte seja feito no orçamento do outro ministério... Cada deputado só concorda com o corte de verbas dos adversários...
Os governadores estão plenamente de acordo com a obrigatoriedade dos Estados começarem a pagar as dívidas contraídas com a União, só que no futuro remoto...

Todo mundo está torcendo para que o plano dê certo, desde que tudo continue como está...
O governo está torcendo para que o plano dê certo, desde que tudo continue como está...
O governo que fazer “caixa” combatendo a sonegação fiscal e acelerando a privatização, mas não acabar — tomara que não! — arrecadando mais impostos dos assalariados ou endividando o Estado com emissão de títulos.

FHC garante que vai por a casa em ordem, que é a hora da Verdade, que não é questão de milagre, mas de austeridades. Tem pouco mais de um ano para isso.

Na prática, o sucesso do Plano Verdade implicaria em Acordo Nacional, numa espécie de pacto social. Todos deveriam dar a sua contribuição, distribuir os sacrifícios, o que nunca se conseguiu antes.

Em verdade, os planos com que pretendiam combater a inflação, redistribuir riquezas e minimizar a inflação, maior concentração de rendas e levando-nos a mais desemprego e miséria.
Fernando Henrique Cardoso precisa domar as nossas elites.
No entendimento de Wanderley Guilherme dos Santos — em “Razões da Desordem” — temos que domar nossas oligarquias fechadas. Abria espaço para a competitividade e a participação, para chegarmos a ”poliarquias”.

Receitas e diagnósticos não faltavam. Tem até planos desenvolvimentistas como o do Hélio Jaguaribe.
Fernando Henrique Cardoso (FHC) conhece todos eles, como ninguém. Hoje, em 1993, todas as esperanças recaem em sua liderança. Não existem salvadores da Pátria — Collor que o diga! — mas podem existir líderes capazes;  e FHC precisa sérum deles. Não pode falhar!


 

 

 
 
 
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